Relatório dos EUA levanta suspeitas sobre radiotelescópio em construção na Paraíba
Documento do Congresso norte-americano cita projeto científico em Aguiar como possível ponto de vigilância ligado à China
Um relatório elaborado por um comitê do Congresso dos Estados Unidos colocou no centro de um debate geopolítico um projeto científico em desenvolvimento no Sertão da Paraíba. O documento sugere que o radiotelescópio BINGO, em construção no município de Aguiar, poderia ampliar a capacidade de inteligência do governo chinês na América do Sul. O equipamento foi incluído em uma lista de 11 instalações localizadas em países sul-americanos que, segundo o relatório intitulado “China no nosso quintal”, poderiam representar potenciais riscos estratégicos para os Estados Unidos.
O documento foi produzido pelo Comitê Seleto da Câmara norte-americana sobre a competição estratégica com o Partido Comunista Chinês. De acordo com o texto, sistemas de observação do espaço profundo poderiam possuir aplicações de “uso dual”, isto é, tanto para fins científicos quanto para atividades de inteligência militar, como monitoramento espacial e rastreamento de alvos.
As suspeitas são fundamentadas, sobretudo, no fato de parte da tecnologia do radiotelescópio ter sido produzida na China. O projeto BINGO é liderado pela Universidade de São Paulo e conta com a participação de diversas instituições brasileiras e internacionais, incluindo universidades do Reino Unido, França, Países Baixos e centros de pesquisa chineses.
O objetivo principal do equipamento é estudar fenômenos ligados à expansão do universo e à chamada energia escura.
Com dimensões comparáveis às de um estádio de futebol, o radiotelescópio será instalado na Serra do Urubu, em Aguiar. A estrutura foi projetada para captar ondas de rádio emitidas pelo hidrogênio neutro no espaço, permitindo aos cientistas investigar a formação e a evolução do cosmos.
Autoridades da Paraíba reagiram com cautela às suspeitas levantadas pelo relatório. O secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Cláudio Furtado, afirmou que o governo estadual aguarda um posicionamento oficial do Ministério das Relações Exteriores antes de comentar o documento.
Além do radiotelescópio paraibano, o relatório menciona outras instalações na América do Sul que, segundo os parlamentares norte-americanos, poderiam estar ligadas à expansão da influência tecnológica chinesa na região, incluindo estruturas em países como Chile, Bolívia, Argentina e Venezuela. Apesar das suspeitas levantadas pelo documento, pesquisadores e autoridades brasileiras afirmam que o projeto tem finalidade exclusivamente científica e integra uma ampla cooperação internacional voltada ao avanço da radioastronomia e do conhecimento sobre o universo.

