Cores da tradição: moradores transformam rua em cenário de Copa e resgatam memórias em Campina Grande
Comunidade do bairro Bela Vista une gerações em projeto coletivo que mistura arte, nostalgia e celebração do futebol
O clima de Copa do Mundo voltou a tomar conta da Rua Dom Pedro II, no bairro Bela Vista, em Campina Grande. Em uma iniciativa marcada por colaboração, memória afetiva e identidade comunitária, moradores se mobilizaram para transformar a via com pinturas temáticas inspiradas na Seleção Brasileira, reunindo crianças, jovens, adultos e idosos em torno de uma tradição que atravessa gerações.
Bandeiras, estrelas e diversos elementos ligados ao universo do futebol passaram a colorir o cenário urbano e reacender um costume antigo do bairro: decorar as ruas durante os períodos de Mundial. A ação foi idealizada por um grupo formado por oito moradores — Emilly Maria, Adrielly Johana, Kalleb Diniz, Josiel Gomes, Édson Carlos, Luan Cardoso, Miguel Seruff e outros colaboradores da comunidade.
Segundo Emilly Maria, uma das organizadoras, o objetivo era muito mais do que apenas ornamentar a rua. A proposta surgiu do desejo de recuperar experiências vividas na infância e proporcionar às novas gerações a mesma sensação de pertencimento e celebração que marcou antigos períodos de Copa.
A lembrança dos encontros coletivos durante os jogos foi um dos principais motores do projeto. Adrielly Johana recorda que, quando criança, costumava sair de casa para assistir às partidas junto com outros moradores e participar da preparação da rua antes dos eventos esportivos.
“Quando éramos pequenas, saíamos de casa para assistir à Copa na casa dos moradores daqui e também fazíamos a pintura da rua antes dos jogos. Crescemos, mas continuamos com esse espírito de criança. Hoje sou mãe e meu filho participa do projeto. Nada melhor do que reviver nossa infância”, relatou.
O que começou como uma ideia simples rapidamente ganhou força e passou a envolver grande parte da comunidade. Para Kalleb Diniz, manter viva essa tradição representa preservar a identidade cultural do bairro e criar referências para as crianças que hoje acompanham a iniciativa.
“A juventude precisa continuar esse movimento e não deixar essa tradição morrer. Queremos que as crianças do Bela Vista cresçam e, no futuro, tenham a mesma energia que estamos vivendo em 2026. Que elas olhem para isso e sintam vontade de continuar”, afirmou.
A execução artística ficou sob responsabilidade de três participantes com experiência em desenho e pintura. Entre eles está Luan Cardoso, que atua com grafite e arte urbana. Ele conta que o interesse pela pintura surgiu ainda na infância e se fortaleceu ao descobrir o universo do grafite.
O projeto também incentivou novos talentos. Miguel Seruff revelou que decidiu participar motivado pela admiração pelo trabalho desenvolvido por Luan. Segundo ele, acompanhar as produções do artista despertou o interesse em aprender técnicas de desenho e se envolver nas ações culturais da comunidade.
Além das pinturas, os moradores organizaram momentos de confraternização com distribuição de cachorro-quente e refrigerante para os participantes. Após a conclusão dos desenhos, uma nova celebração foi realizada com um sopão coletivo para marcar a inauguração da rua decorada. Para Édson Carlos, o maior legado da iniciativa foi o sentimento de pertencimento e o resgate de uma cultura que, segundo ele, não pode desaparecer: “É uma felicidade enorme. Estamos revivendo algo que estava se perdendo. É pura nostalgia”.

